“BASTIDORES”

BYG
Acabo de ler um conto e não sei bem porque me veio à mente uma instituição religiosa da qual fiz parte por muitos anos. Lembro-me bem que eu e uma amiga passávamos por um momento delicado, e em busca de “respostas”, fomos até a cidade de São Paulo, onde nos orientaram a procurar um local em nossa cidade para freqüentar, receber tratamento espiritual e estudar.
Disseram à minha amiga que ela estava quase sem energias e que a sua mediunidade tinha que ser trabalhada, urgentemente. Para mim, como eu vivia uma das muitas situações perturbadoras, devido a alguns acontecimentos “sem explicações”, fora-me dito que eu teria “a casa” em minhas mãos. Fiquei muito feliz, porque entendera que o meu lar teria a paz e a harmonia que eu tanto desejava.
No primeiro dia, chegamos ao local no horário que nos disseram para chegar, mas encontramos o portão e as portas fechadas. Na semana seguinte, um pouco mais cedo, lá estávamos e novamente tudo fechado. Mesmo assim, ficamos lá na frente, quando de repente alguém parece que sentiu a nossa presença e veio abrir as portas. Entramos, mas foi só o que aconteceu. Parecia que éramos tão invisíveis quanto os espíritos que eles evocavam, com as longas preces que proferiam, quase que automaticamente.
Por teimosia ou coisa parecida, continuamos a frequentar este local, onde nos informaram que as quintas-feiras havia estudos da doutrina. Lá fomos nós. Com o passar do tempo, sem embasamento teórico algum, mas com “certo” conhecimento de causa, discutíamos e debatíamos, praticamente, todas as questões apresentadas. Eu falava com uma convicção que eu não sabia que tinha e dessa forma expunha o que sentia e minha amiga voltava os seus comentários a si mesma, sobre as suas sensações e história de vida.
Após alguns dias fomos convidadas a fazer parte do grupo de jovens, liderado por um senhor que estava em praticamente todas as atividades desenvolvidas pela instituição. Mais uma vez, lá fomos nós, para mais uma empreitada. Poucas semanas se passaram e já freqüentávamos praticamente tudo, exceto as segundas-feiras, que davam a entender que era o local “mais sério” e ainda não tínhamos permissão para fazer parte.
Certo sábado, ao chegarmos para a reunião de jovens, sentimos o clima pesado, mas não sabíamos bem o que estava acontecendo. Até que o senhor que comandava o grupo, quase que sem me consultar, disse que eu havia sido escolhida, por ser a mais velha, para tomar conta das reuniões, porque ele teria que se afastar. Achei estranho, mas ao mesmo tempo fiquei lisonjeada, embora ainda não soubesse o que isso significava.
Na reunião da terça-feira, na semana seguinte, o local estava praticamente lotado, e lá estava o senhor que até poucos dias tomava conta do grupo de jovens e que normalmente fazia as palestras do Evangelho. Mas nesse dia ele estava visivelmente mais perturbado do que de costume. De repente, ele se levantou da cadeira em que estava habituado a se sentar na frente. Com a ajuda de sua bengala e em tom ameaçador disse:
- Fui proibido pela senhora Presidente de realizar as orações e a leitura do Evangelho, porque bati em minha esposa!
O local de repente ficou sufocante e as discussões entre ele e a Presidente tiveram início. O senhor misturava as lições do Evangelho com o bate-boca. Foi uma cena lastimável. Os minutos viraram horas de tortura, pois o que mais queríamos era sair dali. Minha amiga e eu, tínhamos nos afeiçoado ao senhor. Por isso, a princípio, não entendemos o que estava acontecendo, tanto que naquela semana fomos a sua casa, e em nossa inocência acreditávamos tratar-se de intrigas. Não poderia ser nada sério, pelo menos da parte dele.
Mas eis que um dia ao passar pela praça central o vi sentado num banco ao lado da Igreja Matriz, com os braços nos ombros de uma moça franzina, que só de olhar para ela nos inspirava certa “piedade”. Logo depois viemos, a saber, que esse foi o motivo do afastamento do senhor de todas as atividades que lá desenvolvia.
Bom, esse foi o primeiro dos muitos episódios desagradáveis e conflitantes que vivenciei neste lugar. Mesmo assim, assumi com os passar dos anos, vários cargos e funções, desde a Presidência, Vice-Presidência, Secretarias e Práticas Doutrinárias. Tais vivências, rapidamente, fizeram com que eu entendesse que a teoria e a prática, infelizmente, não andam juntas. Tanto isso é verdade, em todas as situações, diziam que tudo acontecia em nome de algo “superior”.
Apesar de tratar o assunto com certa dureza, não quero desanimar ninguém de freqüentar tais locais. Embora pareça contraditório, muito aprendi e cresci no tempo em que lá fiquei. E tão pouco quero dizer que não acredito que existam instituições sérias, com pessoas isentas de orgulho e desprovidas da necessidade de exercer o poder, somente pelo poder, mas movidas, verdadeiramente, pela fraternidade, conforme ensinou o Nosso Irmão Maior Jesus.
Durante a longa jornada que percorri com esse grupo, cheia de altos e baixos, com aprendizados e dificuldades. Só agora, depois de muitos anos é que consegui escrever sobre o assunto, como que querendo jogar fora com as letras transcritas, um sonho que lutei por mais de onze anos para concretizar, de que nos “bastidores” as atividades pudessem ocorrer, como davam a entender que aconteciam nos “palcos”, onde as vaidades por instantes tomavam a forma de seres abnegados, movidos por sentimentos de amor e caridade.
Comente lida 231 vezes





