Seção: Contos

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Confissões de Um Pilantra

Rubo Medina

Publicado por Rubo Medina em 02/12/2009 - Veja todos os artigos desse autor

Nos últimos anos, passei me escondendo, fugindo até da própria sombra, me hospedando em hotéis baratos, saindo na calada da noite para não pagar diárias e recitando poesias em praças públicas, disfarçado de mendigo intelectual. Em algumas cidades, tocando músicas em violões ao por do sol, para alegrar um pouco as pessoas que saíam apressada do trabalho, as quais, indiferentes, jogavam uma moeda numa latinha que eu mantinha ao meu lado, o que era suficiente para fazer um pequeno lanche.

Antes de estar nessa situação, eu levava uma vida normal com meus pais, mas impensadamente, acabei me envolvendo numa série de pequenos crimes que no somatório, fizeram com que a minha dívida para com a justiça só pudesse ser paga ao longo de muitas décadas.

Quando não pude mais evitar que o acerto de contas dos crimes… quando acordei, a justiça já havia acordado bem mais cedo. Suas garras já estavam de olhos arregalados há muito tempo e me alcançaram mais cedo do que eu imaginava. Fui preso. Depois de muito tempo, julgado e condenado.

Na cadeia, quando me vi livre das algemas e sendo empurrado violentamente para dentro de uma minúscula cela abarrotada de homens, percebi que o meu destino estava impiedosamente selado. Me senti separado do mundo, de tudo. Sozinho e abandonado. A constatação fez com que lágrimas escorressem pela minha face, sem me importar com a chacota dos outros presos que me olhavam como se eu fosse a última maravilha do mundo.

Me senti separado de mim, do meu querer, do meu viver. Separado da minha liberdade de correr cidades mesmo fugindo, dos meus sonhos, da vontade de estar em diversos lugares, de fazer coisas, de amar. Separado de lugares que cogitei conhecer, mas que acabei não indo além de sites da internet em Lanhouses e cartões postais que eu passava horas e horas olhando nas bancas de revistas. Separado do meu violão, das músicas apaixonadas que eu tocava para alegrar os corações das pessoas e matar a minha fome. Separo das mulheres que amei e que me amaram, quando eu representava o personagem que alimentava as suas fantasias. Separado da minha essência vital, da minha própria voz quando era camelô e gritava nas calçadas das grandes cidades:

- CDs, 3 por R$ 5,00. Meia soquete: R$ 2,00 o par. Chega aí, freguesa, alface fresquinha! Vem… vem comprar!

Agora eu estava ali, trancado, com a cabeça fervilhando. Sabia que, para os próximos anos, os meus planos estariam confinados comigo naquela minúscula cela. Instantaneamente, como um raio, uma misteriosa força se apoderou do meu ser. E essa força fez com eu estancasse as lágrimas que rolavam já meio escassas dos meus olhos.

Naquele momento me dei conta de que me tiraram a liberdade, mas a verdadeira liberdade – a de pensamento – essa não há grade, nem justiça, nem condenação… Nada, nada que a possa tirar de alguém.

Inspirado nos seguintes trabalhos de minha autoria.

- Poetrix: FINALMENTE LIVRE

- Conto Minimalista: COMEMORAÇÃO DE RICO

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1 Comentário lida 245 vezes

Um Comentário para “ Confissões de Um Pilantra ”

Kristal
7 de dezembro de 2009 ás 23:49 hs

Gostei do que escreveu! Acredito que a única prisão a que estamos fadados a ter, é quando bloqueamos os nossos sentimentos, mas os pensamentos, nem mesmos os seus “autores” conseguem detê-los.

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